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605 Forte

O meu Mundo frase a frase. Ironia e sarcasmo usados sem aviso prévio.

Dúvidas, Questões e Problemas II

por F., em 17.08.18

A Catarina (permitam-me desde já referir que esta Catarina não está casada com o António) foi a pessoa que eu escolhi para fazermos o exercício de me colocar dez questões sem qualquer espécie de limitação. A razão pela qual a escolhi é bastante simples: ela sabe escrever. Não no sentido de apenas organizar uma série de vocábulos para formar uma frase. Ela vai além disso, o que condenaria uma hipotética carreira dentro do Jornalismo, diria eu. A Catarina reúne uma característica que até hoje não vi em mais nenhuma pessoa: é uma introvertida expressiva. É uma espécie de contradição da Natureza - dizer coisas sem efectivamente dizer nada. Outro traço marcante da Catarina é o louvável facto de ela conseguir caminhar pela vida sem fazer um único inimigo. Estou certo de que se ela pisar uma granada, a granada não rebenta. A resolução do conflito israelo-árabe só pode passar por ela. Sem pressão, Catarina.

(Esqueci-me de referir um feito da Catarina e decidi colocar dentro destes parêntesis como forma de me auto-penitenciar sempre que ler isto. Eu detesto o Carnaval, mas ela usou a única máscara à qual achei piada até aos dias de hoje: mascarou-se de M&M. Acho que é razão suficiente para cancelarmos todos os Carnavais doravante. Ninguém vai superar).

1- O que dirias ao Francisco com 21 anos, acabado de se licenciar?

- Provavelmente, dir-lhe-ia que agora é que as dificuldades iam começar e que deveria tentar aproveitar o máximo das experiências menos positivas. Acredito piamente em que só crescemos com o sofrimento e acho que é um desperdício passarmos por isso e não ficarmos com nada para nós. Quando andamos na escola ou na faculdade, é fácil porque somos marcados com um número e isso não tem discussão. Cá fora a análise é mais subjectiva e há muitos factores que contribuem para essa análise. O Francisco com 21 anos estava prestes a chocar de frente com o fracasso. Dir-lhe-ia para aproveitar o fracasso e fazer dele uma experiência importante na sua vida. Acho que o fez.

2- Achas que só existe "o amor da nossa vida" ou que vamos encontrando vários ao longo do nosso percurso?

 

- Eu acho que isto depende de pessoa para pessoa, mas que existe a possibilidade de irmos encontrando vários mediante a nossa disponibilidade e abertura para tal. Da mesma forma que conseguimos amar vários filhos ao mesmo tempo. Não significa que amemos as pessoas todas da mesma forma e acho que muitas vezes o erro parte daí: procurar substituir uma pessoa com outra. As pessoas e as relações serão inevitavelmente diferentes, mas acredito que é possível.

 

3- Já fiz terapia e sei que também já fizeste. Achas que as pessoas deviam consultar um psicólogo, por rotina, da mesma forma que consultam um oftalmologista ou um dentista? Como se diz na escola, justifique a sua resposta.

 

- Esta pergunta é bastante interessante. Eu acho que ninguém resolve os problemas por nós. Quem vai ao psicólogo a achar que ele vai resolver os problemas está enganado. Essa é, desde logo, a principal diferença entre ir ao psicólogo e ir ao dentista ou ao oftalmologista, pegando no teu exemplo. Eu acho que não há uma obrigatoriedade de toda a gente fazer consultas de rotina no psicólogo. Acho que estas coisas, uma vez mais, são pessoais e dependem de caso para caso. No entanto, acho que muitas vezes há coisas que queremos dizer e que se calhar a família ou os amigos não estão preparados para ouvir por terem uma determinada posição nas nossas vidas. Nesse sentido, e sem substituir a família ou os amigos (desengane-se também quem pensa que o psicólogo é uma pessoa a quem pagamos cinquenta ou sessenta euros para ser nosso amigo durante quarenta e cinco minutos), o psicólogo pode ser a pessoa ideal. No meu caso, posso dizer que a psicoterapia foi importante e não fecho portas a um dia voltar a fazer. Todos nós temos as nossas limitações e aquilo que eu guardo dessa altura é o esforço contínuo para tentar ser uma pessoa melhor. Não só em relação aos outros, mas também comigo próprio. Há alturas em que isso é mais fácil e transparente e há outras em que não. Parece-me muito importante que toda a gente tenha noção das suas limitações e as tente corrigir ou melhorar. Há quem o consiga fazer sozinho e há quem precise de ajuda. Não há mal nenhum em nenhuma das opções.

 

4- Vamos imaginar que conheces alguém que nunca esteve em Portugal nem sabe nada sobre o país. Quais são as cinco primeiras informações que lhe dás?

 

- A primeira sem dúvida que seria a indicação sobre locais onde comer bem. Acho que é um património riquíssimo que nós temos e que existe em igual medida em muitos poucos países. Depois acho que aconselharia, caso fosse Verão, a fazer uma caminhada nocturna para desfrutar daquilo que é a segurança do nosso país e da liberdade que isso proporciona. Inevitavelmente, teria de explicar o Benfica e mostrar como é que um país tão pequeno conseguiu criar algo tão grande. Diria ainda para visitar o Gerês, o Minho, o Alentejo e as ilhas e para fugir das praias. Por fim, ensinar-lhe-ia a dizer "para o ano volto a Portugal".

 

5- A felicidade está mesmo nas pequenas coisas?

- Não. A felicidade está nas grandes coisas. Aquelas que valorizamos são as que nos trazem felicidade (e desgostos) e não podem ser consideradas pequenas. Percebo a expressão. Normalmente, até remete para a clivagem material/espiritual, mas não consigo considerar que ter saúde, por exemplo, seja uma coisa pequena. Tudo isto também depende um pouco daquilo que cada um considera felicidade. Se calhar, aquilo que normalmente se pensa como "grande coisa" quando alguém nos remete para essa expressão esteja mais ligado a outro tipo de sentimentos como é o caso da euforia. Para mim, felicidade é tranquilidade. São sinónimos. Felicidade é ter a cabeça vazia e não sentir peso nos ombros. No fundo, acaba mais por ser a ausência de problemas do que propriamente algo onde esteja escondida e à minha espera. 

 

6- O que é que gostavas que toda a gente soubesse sobre ti?

 

- Não há nada em particular. Eu acho que mais do que querer que as pessoas saibam isto ou aquilo sobre mim devem ser elas a querer saber isso por elas próprias se tiverem esse interesse, naturalmente. 

 

7- Já tiraste a carta?

- É engraçado que toda a gente faz essa pergunta como se fosse uma inevitabilidade. Nunca ninguém pergunta "queres tirar a carta?". Um pouco como acontece com os filhos. As pessoas nunca perguntam se a outra pessoa quer ter filhos. Perguntam sempre quantos quer ter. Respondendo à pergunta, ainda não tirei. Tenho um bocado aquela ideia de que só faz sentido tirar a carta se for para lhe dar uso imediatamente a seguir. Para isso preciso de ter carro. Se calhar, isso vai fazer com que nunca a vá tirar, mas também não é algo de que necessite verdadeiramente. Neste momento tenho passe, o que já foi um grande passo para uma pessoa que fazia 10 km a pé diariamente nos tempos da faculdade.

 

8- Qual foi a última coisa que te fez chorar?

- Saber que uma pessoa morreu sozinha no hospital de boca aberta e olhos na porta. Foi uma mistura de várias coisas. Por um lado, a pessoa em causa. Por outro lado, o facto de ser bastante visual e me ter conseguido colocar naquela posição. Isto talvez vá soar um pouco a discurso de Miss Mundo, mas a falta de Humanidade é das coisas que mais me toca. Irrita-me mesmo.

 

9- Odeias alguém?

- Não. Felizmente, acho que nunca senti isso. Não significa que não tenha essa capacidade. Sou humano e sei que posso sentir ódio. No entanto, acho que as desavenças que fui encontrando ao longo da vida nunca chegaram a tanto e espero que nunca cheguem. Até te consigo dizer que sou perfeitamente capaz de cumprimentar qualquer pessoa com quem tenha tido uma desavença sem qualquer pingo de hipocrisia. Não significa com isto que voltássemos a ser amigos, se fosse esse o caso, mas são coisas que ficaram lá para trás. Não desejo mal a ninguém. Que nos corra tudo bem a todos.

10- Qual é o melhor desbloqueador de conversa?

- Eu sou péssimo a desbloquear conversas. A minha incapacidade é tal que normalmente as pessoas levam a mal as primeira coisas que eu digo. Lembro-me de um professor, na aula de apresentação, ter referido com algum espanto o facto de eu ser alentejano e eu respondi "sim, aparentemente sou uma espécie exótica". O objectivo era ser uma piada, mas o pobre homem ficou a achar que eu tinha ficado ofendido e eu a tentar mostrar-lhe que era uma piada. O meu melhor desbloqueador de conversa normalmente é uma piada autodepreciativa. Ninguém fica indiferente e fico logo a saber se do outro lado está uma pessoa politicamente correcta ou uma pessoa com sentido de humor (para mim, as pessoas politicamente correctas não têm graça nenhuma, mas isso é conversa para outra ocasião).

 

 

Nanette

por F., em 13.08.18

Nanette é um bom espectáculo de stand-up até que o deixa de ser e passa a ser uma dissertação de Hannah Gadsby, sem o intuito de ter graça, sobre os direitos lgbt, feminismo e todos esses assuntos que normalmente vêm no mesmo pacote. Concordo com muitas das coisas que são ditas, mas decidi apenas debruçar-me sobre aquelas com as quais discordo:

 

1- É feita uma representação das minorias como sendo constituídas por seres complexos e com várias camadas. O homem branco heterossexual é sempre retratado como básico. Por mais grotesco que alguém possa ser, esse alguém também tem várias camadas e também é revestido de complexidade. Nesse sentido, há uma incoerência em criticar a estereotipização das minorias falando no "homem branco heterossexual" como se fosse um ser único e de apenas uma personalidade. Um exercício que me pareceria interessante seria o de ver estas mulheres brancas que falam sobre o domínio do homem branco heterossexual falar sobre o domínio das mulheres brancas sobre as mulheres negras ou até mesmo sobre o homem negro. Infelizmente, nunca acontece. Não está em causa o altruísmo de um Mundo mais justo, mas o egoísmo dos seus próprios direitos. Legítimo, mas egoísta.

2- Hannah Gadsby diz que a comédia autodepreciativa que sempre praticou faz com que a tensão sobre um assunto tão sério seja aliviada e, portanto, está na altura de parar de fazer comédia, pois temos de sentir essa tensão. A dada altura ela diz que tem vergonha dela própria. Na minha opinião, o grande problema reside no facto de Hannah nunca ter conseguido arranjar uma forma de reduzir a sua própria tensão e isso nada tem a ver com a tensão dos outros ou com a comédia. Um Mundo sem gargalhadas ou sorrisos porque "há assuntos que são demasiado sérios para nos rirmos" é sempre um Mundo pior. O mal nunca estará nas piadas sobre os problemas, mas sim nos problemas em si.

 

3- A passagem em que fala do quão cretino era Picasso foi das que mais me chocou. Não por ser Picasso ou por ter uma grande convicção em relação ao valor humano ou artístico do pintor. Também não pelo facto de achar que o cubismo é um contributo maior para a Humanidade do que os aspectos mais negros da vida de Pablo Picasso. Aquilo que me parece evidente é que não se pode julgar a História com os olhos de 2018. O Padre António Vieira era a favor da escravatura. Muitos outros artistas foram boémios e conhecidos pelos seus excessos e alguns até de índole humana bastante duvidosa mesmo para a data. Se seguirmos esta linha de raciocínio, séculos de arte e cultura terão de seguir directos para a fogueira. A História é um encadeamento de sucessos e não se pode ignorar as aprendizagens e evoluções apenas por uma determinada particularidade com a qual discordamos e que é reflexo da sociedade da época. Devemos pegar nisso para aprender e não repetir erros. Outra forma de pensar (em nome do esclarecimento) nada mais será do que um atalho para a ignorância.

4- O que pensar do altruísmo de uma pessoa que diz que apenas quer que a sua história seja ouvida e cobra bilhetes e vende a sua oratória à Netflix para que seja transmitida em todo o Mundo?

 

 

 

 

Progresso

por F., em 05.07.18

Antigamente, tinha o hábito de abrir o jornal e ler as "gordas". Para não incorrer no vil acto do body shaming e deixar o anacronismo de lado, decidi cortar o mal pela raíz: deixei de ler.

Casamento II

por F., em 04.07.18

Amor não é gravata e salto alto. Amor é calças de fato de treino com o elástico largo, chinelo e meia branca.

Casamento

por F., em 04.07.18

O desafio é partilhar de forma romântica óleo de fígado de bacalhau. Uma colherada para ti, uma colherada para mim. Sempre com romance. Sem fazer cara feia. Sem "desliga tu! Não, não, desliga tu!". Os dois sempre ligados. Sem "não és tu, sou eu". Somos nós. É persistência, resistência e fé. É amor.

Redes Sociais

por F., em 26.05.18

Gravou e fotografou tudo para mais tarde recordar o momento que, efectivamente, não viveu.

Carta de Amor

por F., em 23.04.18

Ele era médico e, portanto, a ela só lhe restava uma alternativa: tinha de ser paciente. O diagnóstico era simples e fulminante. Não havia cura. Ia mesmo morrer de amores.  

Manifesto Pró-Camões

por F., em 25.03.18

Não sou dado a patriotismos, mas a defesa da Língua Portuguesa é, antes de mais, um acto de civismo. Circula pelo Facebook uma imagem com a diferença da conjugação verbal do inglês para o português e a multiplicidade de opções que a nossa língua oferece. É evidente que a Língua Portuguesa é difícil. Dirão os mais incautos que é a tendência lusitana para complicar o que os outros simplificam. Direi eu que, quantos mais vocábulos e opções tivermos para expressar as nossas ideias, mais ideias poderemos expressar. Estatisticamente, diria que será mais fácil um macaco escrever algo brilhante em inglês ao carregar aleatoriamente nas teclas de um computador do que se o fizer em português. Deste modo, não defender a Língua Portuguesa, isto é, não escrever de acordo com as regras da Gramática apenas porque se tem preguiça (o que é também uma ideia falsa. Dá tanto trabalho escrever bem como escrever mal) é um atentado contra a liberdade e contra o maior Património vivo que temos no nosso país. Repito: não é uma questão de patriotismo (como não é uma questão de patriotismo não vandalizar o Mosteiro dos Jerónimos). É uma questão de civismo.

Fábula do Certo, da Greve e da Educação

por F., em 18.03.18

Certo dia, o Professor Mocho castigou toda a sua turma de borregos por não ter encontrado o culpado de certa vil acção. Ainda ameaçou dizendo que castigaria todos, caso ninguém se assumisse como culpado. Certo é que ninguém quer ser o delator da turma, da mesma forma que também é certo que é preferível ser culpado e cumprir castigo em conjunto do que sozinho. Decerto que o leitor já reparou em que o fardo é mais fácil de ser carregado se for transportado por todos do que apenas por um. História diferente seria se fosse para comer o fardo. Aí é certo que toda a gente o quer comer sozinha, mas isso são conversas para outros posts. Onde é que eu ia? Ah, certo! O castigo! Dizia eu que ninguém se tinha assumido como culpado e então toda a turma tinha sido castigada. Naquele momento, havia apenas uma certeza naquela turma de vinte borregos: para ser justo com um, o Professor Mocho tinha sido injusto com dezanove.

 

Um certo número de anos mais tarde e que agora certamente não importa precisar, um dos borregos já tinha barbicha e tornou-se no Excelentíssimo Bode Ministro da Educação. Uma das suas primeiras medidas visou combater a incompetência de um punhado de professores aplicando uma certa medida a toda a classe de professores. Certo era e certo foi que os professores acharam a medida injusta e avançaram com uma greve numa certa quinta-feira certeiramente pensada para que os professores (Mochos e outras aves) batessem as asas para o fim-de-semana dois dias certinhos mais cedo. 

Nada mudou e assim se foi cambaleando, decerto que não muito bem, até aos dias hoje.

 

Moral da História: quem um dia tinha sido inocente era agora culpado. Quem um dia tinha sido culpado continuava a ser culpado. É este o problema de trabalhar na Educação. É a base de tudo. Quando a Educação falha, falha a sociedade. 

Democracia

por F., em 18.03.18

O facto de, na maioria das vezes, preferirmos dizer que alguém discorda de nós ao invés de "discordamos" ou "não concordamos" é um indício revelador da condição humana: é o outro que não concorda connosco quando é impossível, num universo de dois, apenas um discordar. Aceitar a opinião dos outros é um esforço racional a que todos temos de nos submeter diariamente. Não estamos preparados para aceitar naturalmente a diversidade de opiniões. A Democracia é uma invenção do Homem, não da Natureza.